quinta-feira, 25 de junho de 2009

O QUE DESEJEI ÀS VEZES...





O que desejei às vezes

O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.




António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999



sábado, 6 de junho de 2009

PARA TI, 3 POEMAS








***

ALBANO MARTINS



3 POEMAS




Para morrer não era
necessária a morte. Bastava
o teu corpo.


*


A ti eu dei tudo.

A minha vida.

A minha morte.


*


Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.



(in «Três Poemas de Amor
seguidos de Livro Quarto»,
prefácio de Luís Adriano Carlos,
Col. «Uma Existência de Papel»,
Edições quasi, 2004)


Albano Martins

(1930)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

NOITE MINHA







Noite


De noite só quero vestido
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos

Sobre os seios quero a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus lábios
a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente

(CANDELABRO, 1964)
Maria Teresa Horta

D.Quixote, Poesia Reunida